Já
faz 180 dias que os mortos dominam a terra. O vento de verão trás o cheiro
fétido de milhares de mortos que perambulam desordenadamente. As cidades não
existem mais, as ruas estão mortas e as casas desabitadas. Não existe esperança
para sobreviventes como eu. O tempo passa, mas os mortos não. Nós, os
sobreviventes, corremos por todo o país à procura de um centro de refugiados, o
que não adianta muito e nem nos dá muitas esperanças. A gentileza humana, que
já era escassa, desapareceu completamente. Cada grupo de sobrevivente
representa um exército lutando pela vida. Meu nome é Sophia e segundo as minhas
contas tenho 17 anos — falo isso porque meu aniversário é em agosto e não tive
tempo de comemorar por causa da infestação dos mortos. Para uma adolescente como
eu não é fácil viver em um mundo tão sombrio, o medo é meu maior companheiro e
as lembranças também. Meu pai morreu nos primeiros dias da infestação, às vezes
eu imagino que ele é um desses corpos que andam pelas ruas, e o que eu vou
fazer se algum dia ele vir atrás de mim, o que me magoa muito. E minha mãe
continua do meu lado, fazendo com que eu resista a cada dia. Não tenho irmãos,
e agradeço por isso, não suportaria perder mais pessoas do que já perdi. O
grupo que eu estou tem seis pessoas. Jack, um homem de meia idade e com cabelos
levemente grisalhos, é o líder; Jenna é a mulher dele e passa a maior parte do
tempo com o marido; Bianca é uma garota da minha idade que encontramos em Belo
Horizonte — nessa época havia um boato de que existia um centro de refugiados
na região — ela perdeu todos os parentes durante o ataque de uma horda de
mortos; Cássio é um ex-policial que sempre nos tira de confusões, ele é
responsável por nos ensinar a atirar e a nos defender, salvou nossas vidas
muito mais do que uma vez; Minha mãe, Violeta, é a psicóloga do grupo, ela
sempre resolve os conflitos, e às vezes parece que ela é mais velha do que os
40 anos que tem, por causa de sua extrema sabedoria; E eu, que não sou
necessariamente útil para o grupo, mas tento ser.
O acampamento foi montado a 50 km de
uma pequena cidade de Minas Gerais, não é seguro ficar perto das cidades, mas
não temos mantimentos suficientes para uma viagem então Jack resolveu que
passaremos um tempo até encontrar o necessário. Temos três barracas, na minha
barraca dormem eu, minha mãe e Bianca, na outra Cássio dorme sozinho, Jenna e
Jack dividem a última, embora Jack passe mais tempo de vigia. Temos uma
caminhonete cabine dupla e a moto de Cássio. Não existe lado bom em um
apocalipse, não temos água para tomar banho direito, não temos comida direito e
não há jeito possível de se ficar calmo em um apocalipse zumbi.
Durante a manhã Jack saiu com Cássio e
Jenna para procurar comida e armas na pequena cidade. Nós — mamãe, Bianca e
eu—, ficamos no acampamento rezando para que eles voltassem bem. Bianca
conversava comigo enquanto vigiávamos a estrada.
— Você acha
que eles vão ficar bem? — ela perguntou. Os olhos castanhos dela tentavam
esconder o pessimismo.
— Eles são
experientes — eu respondi. Bianca esfregava a mão direita no seu cabelo preto,
que estava com uma aparência de muito sujo.
— Sophia, você
é minha amiga? — ela parecia com medo de falar, mau olhava para mim.
— Claro — eu
respondi sorrindo, olhando para ela, e encostando a mão no seu ombro — Porque a
pergunta?
— Eu estou
apaixonada — ela disse abaixando a cabeça. Apaixonada? Não havia pessoas
suficientes no grupo para se apaixonar. A não ser que ela fosse lésbica. O que
eu duvido.
— Por quem?
Nosso grupo é tão pequeno. — eu disse.
— Por Cássio —
ela respondeu. Cássio era 10 anos mais velho que ela, mas mesmo assim um homem
muito atraente — E ele também gosta de mim.
Bem na hora que eu ia falar alguma
coisa minha mãe nos chamou. Havia um morto se aproximando pelo outro lado da
estrada. Corri para pegar uma barra de ferro que estava na barraca de Jack, não
usaríamos a arma por causa do barulho. Zumbi por zumbi, eu preferia um que uma
multidão. Fui em direção ao morto, ele fedia muito, estava com as roupas
esfarrapadas e a pele do seu rosto soltava-se, seus olhos pareciam fitar o
nada, e ele fazia grunhidos que me davam mais nojo do que sua aparência. Não
perdi tempo, enfiei a barra na cabeça dele, o líquido que algum dia foi seu
sangue escorreu pelo furo da barra. Abandonei o corpo inanimado e voltei para o
abraço de minha mãe. Posso parecer fria, mas isso me custou muito mais do que
alguns dias tentando me manter viva.
—Muito bem,
filha — minha mãe disse com orgulho.
— Parabéns
Sophia — Bianca disse sorrindo.
— É melhor
ficarmos mais atentas, esses mortos não perdem uma oportunidade — minha mãe
disse.
Eu fiquei com medo. Esse era o terceiro
ou quarto morto que eu apagava. Não gosto disso. Não gosto de pensar que essas
pessoas já tiveram consciência, já amaram e já sofreram, e ninguém pode
imaginar o que sofreram. Não sinto orgulho. No entanto, nesse novo mundo, matar
é a nossa única chance de viver.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comente o que achou sobre essa postagem!