23 de abril de 2014

Capítulo 2 - The Loving Dead




O sol já estava a pino, meio-dia, e nada de Jack e os outros voltarem. Minha mãe tentava esconder a ansiedade e Bianca às lágrimas. Eu permaneci sentada no chão com a barra de ferro na mão. Eu sei que Jack faria de tudo para que todos retornassem bem e preferia acreditar nisso. Já estávamos preparando o almoço quando avistamos a caminhonete se aproximar. O carro passou em cima do corpo que eu “matei”.
         Cássio desceu do banco do motorista e correu para abrir a porta de trás. Ele fez isso para ajudar Jack a carregar um corpo. Meus olhos saíram à procura de Jenna, não podia ser ela... Mas realmente não era. Jenna saiu do banco do carona e foi ajudar os homens a carregar o corpo. Minha mãe correu para estender um lençol no chão. O corpo foi colocado no lençol e todos olharam para um rapaz com, aproximadamente, 20 anos. Ele estava com o rosto ensanguentado e as roupas sujas de terra.
— Ele nos salvou — disse Jack — Nós fomos encurralados por um pequeno grupo de mortos e esse rapaz ai gastou toda a sua munição atirando neles.
— Mas porque ele se machucou? — perguntou minha mãe enquanto examinava o rosto do garoto.
— Ele estava no teto de uma casa — disse Cássio — As telhas não aguentaram o peso e ele caiu. Uma queda de uns três metros.
         Imaginei a cena e senti dó do rapaz.
— Ele tem sorte de estar vivo — disse minha mãe — Bianca pegue o kit de primeiros socorros lá na nossa barraca e você Sophia me ajuda a limpá-lo.
         Peguei um pano velho e o molhei. Passei o pano pelo rosto do rapaz, enquanto minha mãe limpava a barriga. O rosto dele tem pequenas marcas de expressão, tive a impressão de que ele sorria muito. O cabelo é curto e de uma cor parecida com bronze, um pouco macio também. Fiquei o observando durante todo o tempo que limpava e imaginei como eram os seus olhos.
— Não tem nenhuma fratura — minha mãe disse interrompendo minha contemplação — E os machucados são pequenos. Deve ter batido a cabeça com força, vamos torcer para que ele acorde rápido.
         Enquanto cuidávamos do hóspede, Bianca terminava o almoço e os outros organizavam as coisas encontradas. A parte de trás da caminhonete estava cheia com várias latas de sardinha, pacotes de macarrão, miojo, biscoitos, salsicha enlatada e vários galões de água mineral. Não passaríamos fome pela próxima semana. Jack se aproximou e disse em voz alta:
—Vamos permanecer aqui até o garoto melhorar. Depois partiremos para o litoral — ele disse. Todos concordaram.
         Almoçamos — uma mistura de batata e salsicha com arroz — todos pareciam engolir a gororoba somente para manter o corpo saudável. Após o tão sofrido almoço, Jack e Jenna levaram o garoto para a barraca de Cássio. Bianca estava sentada no chão conversando com o seu suposto amor, Cássio. E mamãe e eu limpávamos os panos com sangue.
— Bianca e Cássio estão bem próximos — disse D. Violeta observando os dois — Eles têm sorte de terem um ao outro para amar.
         Minha mãe sempre amou meu pai. Um amor que nunca acabará mesmo depois da morte. Eu admirava isso, apesar de nunca ter amado.
— Verdade — eu respondi tentando encerrar o assunto.
         A noite se aproximava e com ela o terror. O garoto não acordara e minha mãe já estava preocupada. Cássio dormiria na caminhonete e minha mãe cuidaria do garoto. Ela estava cansada e eu percebi isso. Estávamos na barraca enquanto ela arrumava as coisas para a pequena mudança.
— Mãe — eu disse — Pode deixar que eu cuido dele. A senhora está cansada e precisa dormir — eu observei as bolsas que se formava abaixo dos olhos dela.
— Você sabe o que fazer né? — ela me passou os lençóis, se virou e pegou a barra de ferro — Se ele se transformar não hesite.

         Sai da barraca com o que ela disse na cabeça. Não sei se teria coragem de matá-lo. Preferia acreditar que ele ficaria bem e que seríamos amigos. A escuridão já tomava conta de tudo, a lanterna estava aportada para o rosto do garoto. A respiração dele estava normal e vez ou outra ele se mexia. Deitei-me ao seu lado e adormeci. Acordei com alguma coisa se mexendo ao meu lado, senti a barra de ferro na minha mão e sem pensar levantei-me rapidamente e apontei para o que estava do meu lado. Mas ele não era um morto. Ele estava vivo e com o rosto assustado. 

17 de abril de 2014

Capítulo 1


Já faz 180 dias que os mortos dominam a terra. O vento de verão trás o cheiro fétido de milhares de mortos que perambulam desordenadamente. As cidades não existem mais, as ruas estão mortas e as casas desabitadas. Não existe esperança para sobreviventes como eu. O tempo passa, mas os mortos não. Nós, os sobreviventes, corremos por todo o país à procura de um centro de refugiados, o que não adianta muito e nem nos dá muitas esperanças. A gentileza humana, que já era escassa, desapareceu completamente. Cada grupo de sobrevivente representa um exército lutando pela vida. Meu nome é Sophia e segundo as minhas contas tenho 17 anos — falo isso porque meu aniversário é em agosto e não tive tempo de comemorar por causa da infestação dos mortos. Para uma adolescente como eu não é fácil viver em um mundo tão sombrio, o medo é meu maior companheiro e as lembranças também. Meu pai morreu nos primeiros dias da infestação, às vezes eu imagino que ele é um desses corpos que andam pelas ruas, e o que eu vou fazer se algum dia ele vir atrás de mim, o que me magoa muito. E minha mãe continua do meu lado, fazendo com que eu resista a cada dia. Não tenho irmãos, e agradeço por isso, não suportaria perder mais pessoas do que já perdi. O grupo que eu estou tem seis pessoas. Jack, um homem de meia idade e com cabelos levemente grisalhos, é o líder; Jenna é a mulher dele e passa a maior parte do tempo com o marido; Bianca é uma garota da minha idade que encontramos em Belo Horizonte — nessa época havia um boato de que existia um centro de refugiados na região — ela perdeu todos os parentes durante o ataque de uma horda de mortos; Cássio é um ex-policial que sempre nos tira de confusões, ele é responsável por nos ensinar a atirar e a nos defender, salvou nossas vidas muito mais do que uma vez; Minha mãe, Violeta, é a psicóloga do grupo, ela sempre resolve os conflitos, e às vezes parece que ela é mais velha do que os 40 anos que tem, por causa de sua extrema sabedoria; E eu, que não sou necessariamente útil para o grupo, mas tento ser.
         O acampamento foi montado a 50 km de uma pequena cidade de Minas Gerais, não é seguro ficar perto das cidades, mas não temos mantimentos suficientes para uma viagem então Jack resolveu que passaremos um tempo até encontrar o necessário. Temos três barracas, na minha barraca dormem eu, minha mãe e Bianca, na outra Cássio dorme sozinho, Jenna e Jack dividem a última, embora Jack passe mais tempo de vigia. Temos uma caminhonete cabine dupla e a moto de Cássio. Não existe lado bom em um apocalipse, não temos água para tomar banho direito, não temos comida direito e não há jeito possível de se ficar calmo em um apocalipse zumbi.
         Durante a manhã Jack saiu com Cássio e Jenna para procurar comida e armas na pequena cidade. Nós — mamãe, Bianca e eu—, ficamos no acampamento rezando para que eles voltassem bem. Bianca conversava comigo enquanto vigiávamos a estrada.
— Você acha que eles vão ficar bem? — ela perguntou. Os olhos castanhos dela tentavam esconder o pessimismo.
— Eles são experientes — eu respondi. Bianca esfregava a mão direita no seu cabelo preto, que estava com uma aparência de muito sujo.
— Sophia, você é minha amiga? — ela parecia com medo de falar, mau olhava para mim.
— Claro — eu respondi sorrindo, olhando para ela, e encostando a mão no seu ombro — Porque a pergunta?
— Eu estou apaixonada — ela disse abaixando a cabeça. Apaixonada? Não havia pessoas suficientes no grupo para se apaixonar. A não ser que ela fosse lésbica. O que eu duvido.
— Por quem? Nosso grupo é tão pequeno. — eu disse.
— Por Cássio — ela respondeu. Cássio era 10 anos mais velho que ela, mas mesmo assim um homem muito atraente — E ele também gosta de mim.
         Bem na hora que eu ia falar alguma coisa minha mãe nos chamou. Havia um morto se aproximando pelo outro lado da estrada. Corri para pegar uma barra de ferro que estava na barraca de Jack, não usaríamos a arma por causa do barulho. Zumbi por zumbi, eu preferia um que uma multidão. Fui em direção ao morto, ele fedia muito, estava com as roupas esfarrapadas e a pele do seu rosto soltava-se, seus olhos pareciam fitar o nada, e ele fazia grunhidos que me davam mais nojo do que sua aparência. Não perdi tempo, enfiei a barra na cabeça dele, o líquido que algum dia foi seu sangue escorreu pelo furo da barra. Abandonei o corpo inanimado e voltei para o abraço de minha mãe. Posso parecer fria, mas isso me custou muito mais do que alguns dias tentando me manter viva.
—Muito bem, filha — minha mãe disse com orgulho.
— Parabéns Sophia — Bianca disse sorrindo.
— É melhor ficarmos mais atentas, esses mortos não perdem uma oportunidade — minha mãe disse.

         Eu fiquei com medo. Esse era o terceiro ou quarto morto que eu apagava. Não gosto disso. Não gosto de pensar que essas pessoas já tiveram consciência, já amaram e já sofreram, e ninguém pode imaginar o que sofreram. Não sinto orgulho. No entanto, nesse novo mundo, matar é a nossa única chance de viver. 

The Loving Dead

Olá!
Vamos postar semanalmente (ou quando tivermos tempo) os capítulos da nossa estória "The Loving Dead" e, além disso, vamos comentar e postar ideias para os próximos capítulos. 
Beijos