O sol já
estava a pino, meio-dia, e nada de Jack e os outros voltarem. Minha mãe tentava
esconder a ansiedade e Bianca às lágrimas. Eu permaneci sentada no chão com a
barra de ferro na mão. Eu sei que Jack faria de tudo para que todos retornassem
bem e preferia acreditar nisso. Já estávamos preparando o almoço quando
avistamos a caminhonete se aproximar. O carro passou em cima do corpo que eu
“matei”.
Cássio desceu do banco do motorista e
correu para abrir a porta de trás. Ele fez isso para ajudar Jack a carregar um
corpo. Meus olhos saíram à procura de Jenna, não podia ser ela... Mas realmente
não era. Jenna saiu do banco do carona e foi ajudar os homens a carregar o
corpo. Minha mãe correu para estender um lençol no chão. O corpo foi colocado
no lençol e todos olharam para um rapaz com, aproximadamente, 20 anos. Ele
estava com o rosto ensanguentado e as roupas sujas de terra.
— Ele nos salvou
— disse Jack — Nós fomos encurralados por um pequeno grupo de mortos e esse
rapaz ai gastou toda a sua munição atirando neles.
— Mas porque
ele se machucou? — perguntou minha mãe enquanto examinava o rosto do garoto.
— Ele estava
no teto de uma casa — disse Cássio — As telhas não aguentaram o peso e ele
caiu. Uma queda de uns três metros.
Imaginei a cena e senti dó do rapaz.
— Ele tem
sorte de estar vivo — disse minha mãe — Bianca pegue o kit de primeiros
socorros lá na nossa barraca e você Sophia me ajuda a limpá-lo.
Peguei um pano velho e o molhei. Passei
o pano pelo rosto do rapaz, enquanto minha mãe limpava a barriga. O rosto dele
tem pequenas marcas de expressão, tive a impressão de que ele sorria muito. O
cabelo é curto e de uma cor parecida com bronze, um pouco macio também. Fiquei
o observando durante todo o tempo que limpava e imaginei como eram os seus
olhos.
— Não tem
nenhuma fratura — minha mãe disse interrompendo minha contemplação — E os
machucados são pequenos. Deve ter batido a cabeça com força, vamos torcer para
que ele acorde rápido.
Enquanto cuidávamos do hóspede, Bianca
terminava o almoço e os outros organizavam as coisas encontradas. A parte de
trás da caminhonete estava cheia com várias latas de sardinha, pacotes de
macarrão, miojo, biscoitos, salsicha enlatada e vários galões de água mineral.
Não passaríamos fome pela próxima semana. Jack se aproximou e disse em voz
alta:
—Vamos
permanecer aqui até o garoto melhorar. Depois partiremos para o litoral — ele
disse. Todos concordaram.
Almoçamos — uma mistura de batata e
salsicha com arroz — todos pareciam engolir a gororoba somente para manter o
corpo saudável. Após o tão sofrido almoço, Jack e Jenna levaram o garoto para a
barraca de Cássio. Bianca estava sentada no chão conversando com o seu suposto
amor, Cássio. E mamãe e eu limpávamos os panos com sangue.
— Bianca e
Cássio estão bem próximos — disse D. Violeta observando os dois — Eles têm
sorte de terem um ao outro para amar.
Minha mãe sempre amou meu pai. Um amor
que nunca acabará mesmo depois da morte. Eu admirava isso, apesar de nunca ter
amado.
— Verdade — eu
respondi tentando encerrar o assunto.
A noite se aproximava e com ela o
terror. O garoto não acordara e minha mãe já estava preocupada. Cássio dormiria
na caminhonete e minha mãe cuidaria do garoto. Ela estava cansada e eu percebi
isso. Estávamos na barraca enquanto ela arrumava as coisas para a pequena
mudança.
— Mãe — eu
disse — Pode deixar que eu cuido dele. A senhora está cansada e precisa dormir
— eu observei as bolsas que se formava abaixo dos olhos dela.
— Você sabe o
que fazer né? — ela me passou os lençóis, se virou e pegou a barra de ferro —
Se ele se transformar não hesite.
Sai da barraca com o que ela disse na
cabeça. Não sei se teria coragem de matá-lo. Preferia acreditar que ele ficaria
bem e que seríamos amigos. A escuridão já tomava conta de tudo, a lanterna
estava aportada para o rosto do garoto. A respiração dele estava normal e vez
ou outra ele se mexia. Deitei-me ao seu lado e adormeci. Acordei com alguma
coisa se mexendo ao meu lado, senti a barra de ferro na minha mão e sem pensar
levantei-me rapidamente e apontei para o que estava do meu lado. Mas ele não
era um morto. Ele estava vivo e com o rosto assustado.
